Hoje, na escola pode não ter acontecido nada de mais. Hoje, na escola pode até não ter acontecido nada de menos. Mas, tenho a certeza de que...hoje, na escola aconteceram coisas a multiplicar. Multiplicaram-se brincadeiras e trabalhos, multiplicaram-se laços e zangas, multiplicaram-se birras, amuos, amizades, medos e ansiedades.
Aqui poderemos ver o que vai acontecendo numa escola que, apesar das suas especificidades, poderia ser qualquer uma. Uma escola que vive das crianças e de tudo o que gira à sua volta. São elas o produto, mas também a matéria-prima e é principalmente delas que falaremos neste espaço.


Cada dia será um hoje,
cada dia será um novo dia,
Um dia na vida de uma escola,
Um dia na vida de uma criança,
De um professor ou de um pai.
Porque a escola será
O dia de hoje,

O dia de amanhã
Os dias que hão-de vir...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Renascer



Quando este Blogue se iniciou, há pouco mais de dois anos, a ideia foi partilhar experiências, vivências e ocorrências, mas acima de tudo, partilhar coexistências. Coexistências numa escola em particular, na qual podemos relatar acontecimentos comuns a várias escolas, aliás, comuns a qualquer escola. Contudo, sem nos alongarmos em justificações para um tão prolongado interregno, poder-se-á referir apenas que os episódios na vida da escola não cessaram e as crianças continuam a fazer-nos rir e sorrir diariamente, mas que, a disponibilidade para actualizar este blogue deixou de ser sequer suficiente para ele se manter vivo.
Durante este período de tempo houve muito que se perdeu e as histórias que ficaram por contar decerto que teriam tornado este espaço muito mais rico. Mas como foi referido no início, a Escola é um espaço de coexistências e quem "vive" na escola sabe que as crianças todos os dias têm algo para nos surprender, como tal, basta aguardar que novas experiências venham enriquecer este espaço.
E assim sendo, tentaremos ressuscitar este blogue e assim, "trazer à luz" novas narrativas onde as crianças sejam os intervenientes principais e que, para além de nos divertirem, nos permitam reflectir, aprender e recordar os tempos em que chegávamos a casa, depois de um dia e os nossos pais nos perguntavam:
- Filho, o que aconteceu hoje na escola?

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Dependência?

Nestes dias, quando chegamos à escola com o objectivo de, na tranquilidade do nosso espaço de ensino a que, possessivamente, apelidamos de "nossa" sala, fazer avaliações e organizar materiais, fichas e afins, acabamos, muitas vezes, por ser obrigados eliminar a palavra "tranquilidade" deste contexto.
Quando o primeiro grupo de crianças se cruza connosco, no corredor da escola, e nos implora: "Professor, podemos ir para a sala ajudar!" imediatamente acedemos a esse pedido e esquecemos a intenção de ter um dia de trabalho plácido, na quietude da "nossa" sala.
É inquestionável que a ajuda dos alunos, nestes dias, é preciosa. Há fichas para colocar em dossiers; há testes para colocar em envelopes, devidamente identificados, para mostrar aos encarregados de educação; há os livros da biblioteca de sala de aula para ordenar; há o cantinho dos jogos que precisa de arrumação... há tudo isto e muito mais, mas este muito mais é bastante mais. É haver uma sala que precisa de alunos, é haver um professor que deles também precisa e é eles precisarem do professor.
Quando Manuel Jacinto Sarmento (1994, p.73) dizia que "os professores são os profissionais do não-silêncio" não poderia estar mais certo. Mas esse "não-silêncio", esse acto de comunicar, é dirigido, maioritariamente, às crianças. São elas, quase sempre, o receptor da mensagem. Como tal, que sentido faria um professor, na sala de aula, sem os alunos e os alunos sem o professor.
Durante aproximadamente três meses, todos os dias úteis, durante cerca de oito horas, professores e alunos vivem e convivem, comunicam, partilham, agem e reagem, brincam, riem, jogam e também trabalham. Este agir simultâneo e permanente causa uma dependência, mas não uma dependência patológica,uma dependência salutar, uma dependência que faz com que, mesmo de férias, haja alunos nas salas de aula, alunos que pedem para ajudar professores e professores que aceitam a ajuda dos alunos, alunos que querem a disciplina da sala de aula e professores que abdicam do sossego de uma sala sem crianças, alunos que querem estar com os professores e professores que querem estar com os "seus" alunos.
Bendita dependência!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Ori Kami

Quando iniciámos um projecto neste colégio envolvendo a arte japonesa de Origami (Ori=Dobrar Kami=Papel), o sentimento era de que seria uma actividade interessante do ponto de vista lúdico e importante para o desenvolvimento de certas competências nas crianças. A adesão dos alunos a este tipo de actividade foi arrebatadora.
O termo mais adequado não será adesão, nem tampouco interesse, creio mesmo que a palavra paixão será pequena para classificar a reacção dos alunos do 3º ano à arte de dobrar o papel. O diagnóstico observado nestes alunos poder-se-à classificar por uma Obsessão Saudável mas Compulsiva pela Arte da Dobragem do Papel.
De repente, cada criança era um "Deus da Criação em Papel", um Deus capaz de criar, por geração espontânea: sapos, rosas, aviões, pássaros, caixas, pirâmides, cubos, estrelas, barcos, chapéus e toda uma panóplia de artefactos que, rapidamente, inundaram a escola, as casas, os automóveis e outros espaços frequentados pelas crianças. De repente, a melhor prenda de Natal passou a ser uma enciclopédia de Origamis, ou um livro com modelos de Origami. De repente, estava decidido: "Vou oferecer "tsurus" (ave de papel que simboliza a Sorte, Saúde, Felicidade e Fortuna) de papel a todos os membros da minha família", dizia um aluno entusiasmado. Houve até, imaginem, quem sonhasse vir a ser origamista de profissão.
Hoje, na escola...foi o último dia de aulas e dada a especificidade desse dia, era dia de festa, dia de cinema, de teatro, de danças, de jogos ou simplesmente, dia de estar pouco tempo na sala. Mas, para um punhado de alunos do 3º ano, não havia razão para estar pouco tempo na sala, pois isso significaria abdicar de trabalhar o papel, abdicar da criação, abdicar de usar as mãos para conceber novas figuras a partir de folhas, partes de folhas ou restos de folhas.
Quando, à hora do almoço, no último dia de aulas, uma dezena de alunos sugeriu ir para a sala e passar o resto do dia a aprender a fazer novos modelos de origami, percebemos a dimensão e o alcance deste projecto. Assim resultem novos projectos que idealizarmos!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Persuasão do Açucar

Hoje na escola...foi dia de Festa de Natal. Como prevíamos, da festa nada a destacar. Mais uma em que as crianças estiveram exemplares. Cantaram, tocaram e representaram como lhes foi pedido (ou exigido) por educadoras e professores.
Após a festa sim, um episódio marcante na vida de uma criança...estar cara-a-cara com o Pai Natal.
Quando ao longe surgiu o timbre inconfundível do "Ho, Ho, Ho", uns riram, outros choraram; uns abriram a boca de espanto, uns de curiosidade e outros ainda de medo; uns correram na direcção da voz, outros no sentido oposto, mas todos sentiram a magia do Natal. Para os que acreditam na figura do Pai Natal, a riqueza do momento residiu no contacto com o senhor das barbas. Para os outros, restou a magia de receberem uma lembrança: um chupa. E era aqui que queria chegar.
Hoje na escola...um chupa foi mais forte do que uma menina de 6 anos.
Um chupa que não quis aguardar para ser sobremesa. Um chupa que preferiu ser aperitivo. Isto imediatamente a seguir à professora ter proferido e repetido a sentença: "NINGUÉM COME O CHUPA ANTES DO ALMOÇO! OUVIRAM? NINGUÉM COME O CHUPA ANTES DO ALMOÇO!". Mas todos conhecemos a capacidade de persuasão desses seres de açúcar caramelizado. Pois é...uma menina não resistiu e o chupa conseguiu convencê-la de que estava na hora de fugir à lei. E foi assim que este acabou na boca da pequena. Mas a fuga à lei deste incorrigível doce não ficou por aí. Quando alguém estava prestes a apanhar o infractor, não é que ele fugiu para dentro do bolso da camisa da aluna?
O malfeitor foi encontrado agarrado, literalmente agarrado ao tecido do bolso da camisa da garota. Em seguida, foi imediatamente apresentado às autoridades competentes, não voltando a reaparecer perto da sua vítima, durante o resto do dia.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Festas de Natais e outras que tais...

Uma tarde a ensaiar crianças dos 3 aos 10 anos para uma festa de Natal é algo que obriga a reflexão neste blogue.

Natal é sinónimo de festa na escola e festa na escola é sinónimo de ensaios até à exaustão. Ensaiar até as crianças saberem o que fazer, como fazer, quando fazer e, mais importante, o que não fazer, como não fazer e quando não fazer.
Debrucemo-nos então sobre o não fazer:
Para os mais pequeninos o não fazer é fazer. O não saltar em cima do palco é saltar em cima do palco, o não dizer adeus aos pais é dizer adeus aos pais, o não tirar os olhos do professor de expressão musical é olhar para todo o lado, menos para o professor de música. O não fazer, no dia da festa é a garantia de que, de certeza eles irão fazer. Está claro, com a excepção de um resistente que canta, gesticula e representa por todos os outros que não o fazem.
Para os maiores o não fazer é não fazer mesmo ou vai para a sala sem participar na festa; ou terá de escrever no caderno: "Não volto a fazer...", ou leva um recado para os pais ou, simplesmente, ouve um sermão acerca do que não devia ter feito. Aqui o caso é diferente, mas não menos interessante. Os maiores sabem que o não fazer é não fazer mesmo mas...irão sempre fazê-lo. Irão fazer pelo desafio, por provocação, por piada ou porque se esqueceram de que não deviam fazer. Contudo, no dia da festa acabam por fazer. Chamemos-lhe - "Responsabilidade".
Em suma, ensaios serão sempre ensaios e festas serão sempre festas. Uns fazem, outros não mas acabam sempre todos por fazer o que queremos, ou quase sempre, ou quase todos.
Engraçado seria investir numa festa de improviso, de brincadeira, sem ensaios, sem planos, sem professores a dizerem o que não fazer...no palco poderiam fazer tudo aquilo que lhes viesse à cabeça. Imaginação, dramatização, brincar ao "Faz de Conta"...ninguém melhor do que as crianças sabe fazer isso. Um dia...quem sabe...enquanto isso não acontecer podemos dizer:
Hoje, na escola estivemos a tarde toda a ensaiar para a festa de Natal, valeu a pena...